FÁBRICA DE CHOCOLATE

2016

Herrera só queria ver o futebol. Cadeira especial. Meio do campo.

Baseado não deixa marcas. Diz que é “lixeiro da sociedade”.

 

Rosemary gosta de música de zona durante os interrogatórios.

 

Piedade teve que parar o jogo de tênis para se livrar do corpo.

 

Dodói tem problemas. Deveria ser internado.

 

Doutor, o dono da fábrica, foi quem denunciou o funcionário.

 

A imprensa diz que todos são boa gente.

 

Antônio, o operário, está morto. Ou melhor, “suicidado”.

 

POR QUE FALAR DE TORTURA ?

“Fábrica de Chocolate” é um texto escrito por Mário Prata “quase” como uma homenagem ao Vladimir Herzog. “Quase”, porque o texto não tem apelo emocional ou afetivo, pelo contrário, é muito mais uma ação de denúncia e perplexidade.

 

Na trama, conhecemos o ponto de vista dos torturadores, apenas funcionários, alienados num sistema onde não se reconhecem carrasco: são apenas instrumentos de manutenção da ordem e, vez ou outra, lidam com algum “material irrecuperável”. “Ossos do ofício”!

 

Não há culpa, não há tristeza, pena, nada... A certeza da impunidade só agiliza e desburocratiza o processo de livrar-se do corpo. E nada mais comum na repressão do que transformar vítimas em culpado. Monta-se o circo do suicídio. Afinal, um suicídio é sempre um suicídio! Um suicídio sempre dá primeira página!

 

É importante saciar a imprensa e fazê-la repetir as histórias que o opressor conta. A mídia sempre se mostrou uma eficaz ferramenta de sustentação do poder. Poder esse financiado pelas elites, pelos ricos industriais que mais do que questões econômicas estão aptos a indicar quem deve viver ou morrer.

 

É preciso manter a ordem! Pela família, pela propriedade, pelo país. Ontem e hoje!

 

No início de 2014, o “Fábrica de Chocolate“ surgiu como uma leitura encenada do Teatro da Neura. Era só um texto bom, cheio de ironia, que queríamos que o público conhecesse. Estávamos em períodos de ensaio quando aconteceram duas coisas: tivemos que desocupar nossa sede e iniciou-se as “manifestações de 2013”.

 

Quando percebemos o desvirtuamento de algumas revindicações e o surgimento de grupos de extrema direita, pedindo a volta do regime militar, nos assustamos.

 

Em 2015, quando abrimos a nossa sede, o Espaço N de Arte e Cultura, nossa primeira temporada, não foi com espetáculo, foi com a leitura encenada de “Fábrica de Chocolate”. Simbólico: dentre todas as lutas para nos mantermos numa cidade extremamente tradicionalista, nossa escolha deixa claro que não vamos tolerar e vamos denunciar as tentativas de silenciamento.

 

Em agosto de 2016, fizemos duas apresentações em São Paulo, em CEUS da periferia. Estávamos as vésperas do golpe. Os dois dias lotados. Incrível como o público relacionou o espetáculo com o momento presente. Viram a polícia que bate e mata. Viram o Amarildo. Viram o perigo da mídia que deturpa. Viram, falaram e nós ouvimos.

 

Por isso, voltamos para sala de ensaio. Entendemos que o espetáculo ainda hoje é denúncia. Mais do que uma lembrança dos tempos da ditadura, ele trata de nossos dias e dos discursos de ódio que nos rodeiam.

Do quanto perigoso é validar um sistema opressor. Do momento em que uma pessoa deixa de ser gente e passa a ser um corpo...

© 2014 por Fernandes Junior / Instituto N de Arte e Cultura.

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